quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Campina Grande além do São João

Vista do anoitecer a partir do Açude Velho, no centro da cidade. Fonte: http://static.panoramio.com/
Não sei se todo mundo que nos segue sabe, mas eu e Jayme moramos no Recife - PE, e a empresa em que ele trabalhava fica em Campina Grande - PB. As duas cidades distam cerca de 200km. Às vezes, Jayme precisa ir a Campina para reuniões, visitas técnicas etc. Normalmente eu não posso ir, por causa do trabalho, mas, acontece algumas vezes de eu estar de folga justamente nesse dia. Aproveito a viagem para passear. É disso que trata esse post. Das minhas descobertas em Campina Grande, fora da época junina. Sim! Existe Campina Grande além do São João!
A primeira coisa que eu descobri, e que eu como boa amiga ensino aqui, pra ninguém dizer que eu não avisei, é: NÃO PEÇA INFORMAÇÃO. Pesquise no Google, leve seu mapa, leve GPS, se municie de toda e qualquer informação que você sonhe que possa precisar, mas não pergunte nada ao povo. Sério! Não adianta! Se eles não sabem, simplesmente te mandam para o lugar errado. Pode ser que eu tenha dado muuuuuito azar e que isso só aconteça comigo, mas pode ser que não... Então não vale a pena arriscar. Eu estava no Açude Velho, a poucos metros do Museu do Algodão, perguntei onde era e me mandaram pra outro lado. Percebi que estava no caminho errado, perguntei a outra pessoa que me mandou para mais longe ainda. Pedi ajuda a um policial, que também não estava preparado para lidar com turistas e me indicou outro caminho errado, que me levou para dentro de uma favela. Lá na favela, uma moça do Rio Grande do Norte que vende jogo do bicho foi quem me salvou e me indicou o caminho correto. Depois de 1h05min caminhando debaixo de sol forte, cheguei irritadíssima ao Museu. Abaixo o mapa da minha Odisseia:
Aconteça o que acontecer, não peça informações!

O Museu do Algodão

Muita gente não sabe, mas o algodão foi a mola propulsora da economia sertaneja durante décadas. Campina Grande é uma das cidade que se beneficiou diretamente dessa produção. A cidade ainda era muito pequena quando, no início do século passado, o alemão Christiano Lauritzen se tornou prefeito. Ele quis explorar a cultura do algodão, já tão marcante naquela região, e trouxe várias benfeitorias ao município. Uma delas foi a construção de uma linha de trem, do Recife até Campina, para escoar a produção do vegetal. O mesmo trem que levava algodão, trazia riqueza e novidades. Dessa forma, a sociedade campinense foi muito desenvolvida culturalmente.
Hoje, o antigo prédio da estação ferroviária abriga o Museu do Algodão, que conta toda a história da família Lauritzen, do ciclo econômico e da ferrovia. Tem até um trem de verdade exposto! Mas, apesar de muito interessante, o museu é mal organizado.  As peças não estão dispostas por assunto, ou por época. Tem um botão de camisa de maquinista junto com uma prensa de algodão e uma foto de Lauritzen, tudo lado a lado. Não há um critério. Nas paredes foram colocadas poesias e textos de escritores da cidade. Muitos repetidos. De toda forma, vale a pena a visita, porque a história é interessante.
Museu do Algodão
Móveis, objetos e fotos da família Lauritzen, em exposição no Museu.

Almoço no Bar do Cuscuz

Um dos melhores restaurantes de Campina Grande é, sem dúvida, o Bar do Cuscuz. A comida é típica, bem servida e deliciosa. Indicamos a Charque na Nata, assim mesmo, no feminino, que é como se fala no Nordeste. Só pra dar uma ideia, uma cumbuca de barro vem recheada com charque picadinha, refogada em verduras, com queijo coalho em cubos e nadando na nata. para acompanhar o prato clássico que dá nome ao bar: O bom e velho cuscuz, por que não? É de comer chorando e se abraçando! Para acompanhar, a cerveja é estupidamente gelada. Tudo isso em um ambiente agradável às margens do Açude Velho. Pra ninguém botar defeito.

Bar do Cuscuz e a Charque na Nata. Huuummmm!
(A foto de cima eu peguei do site de Filipe Gaudêncio)

À tarde, um passeio mais light para fazer a digestão

Depois de um almoço tão gostoso quanto calórico, fui ao centro da cidade. Lá, visitei três locais: A Catedral Diocesana de Nossa Senhora da Conceição, o Viaduto Elpídio de Almeida, que os campinenses chamam de ponte estaiada, e o Museu Histórico da Cidade. Na ordem:
A Catedral Diocesana de Nossa Senhora da Conceição - Criada em 08 de dezembro de 1769 como uma paróquia da Diocese de Olinda, abriga atualmente a Diocese de Campina Grande. Era um prédio pequeno e humilde até 1885, quando o Vigário Sales iniciou a reforma, que durou dois anos. Desde então, a Catedral tem o tamanho atual.

Quer saber o porquê a catedral era inicialmente uma paróquia da diocese de Olinda? Leia mais em: 09 curiosidades que você provavelmente não sabia sobre olinda

Catedral Diocesana de Nossa Senhora da Conceição

Viaduto Elpídio de Almeida - Inaugurado em 2007 pelo então governador da Paraíba Cássio Cunha Lima, foi um presente para a sua cidade natal. Projetado para desafogar o trânsito numa das principais rotatórias da cidade, o viaduto faz a ligação entre as avenidas Manoel Tavares, Floriano Peixoto e Janúncio Ferreira (conhecida como Avenida Canal), sobre a Praça Augusto dos Anjos. Contituído de uma torre central com 60 metros de altura que tem a função de sustentar através de estaios as três pistas que formam o complexo viário, custou cerca de 28 milhões de reais ao Governo Estadual.


Viaduto Elpídio de Almeida

O Museu Histórico da Cidade - Em frente à Catedral, funciona onde antigamente era o prédio dos Correios e Telégrafos. Com um rico acervo, abriga peças que contam a história de Campina Grande. Festas de Carnaval, times de futebol, o primeiro gerador de energia elétrica e até o Cassino Eldorado, o primeiro cabaré da cidade, tudo está muito bem retratado no museu!

Museu Histórico da Cidade de Campina Grande

Uma curiosidade: A história do 'bataclã' de Campina

"O Cassino Eldorado foi construído pelo comerciante João Veríssimo de Souza e projetado em Art Déco pelo arquiteto Isac Soares. Possuía apartamentos para mulheres e dependências para jogos e diversão. Era dotado de gerador, pois a luz, deficiente na época, apagava cedo. A sala do Show-Room tinha espaço para 36 dançarinas, exibição de artistas e 40 mesas para os espectadores. Nas salas de jogos havia roletas, mesas de ronda, bacará, campistas, espadim e pocker, e um elegante palco para a orquestra.
"O Eldorado foi inaugurado em 1 de julho de 1937. Os artistas da estreia vieram da Rússia: Trótsky and Mary, e o apresentador oficial era Catalano, artista do cinema brasileiro.
"De 1937 a 1941, o Cassino Eldorado não parou de trazer artistas famosos como: Teda Diamante, as vedetes Nenen e Sereia Negra, o casal mexicano Tapiá Rúbio, que fez sucesso nos filmes de Hollywood, Paraguaíta, Glória Dias, que era famosa cantora de tango na Argentina, além da atração permanente que era a sua orquestra fixa, que tinha entre os músicos o "Rei do Ritmo" Jackson do Pandeiro.
"O elenco de famosas mulheres que brilhavam na noite do Eldorado era formado por Neide, Toinha Moreno, Lourdinha Futebol, Chiquinha Dantas, Chiquinha Moreno, Licor, Mercedes, Josefa Tiburtino e a legendária Maria Garrafada, entre outras famosas pela elegância e beleza. Muitas das mulheres eram oriundas de Recife e do Rio de Janeiro". (Extraído do Museu Histórico da Cidade de Campina Grande)

Prédio do Cassino Eldorado. As 'mulheres direitas' nem passavam na rua do cabaré.

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Nívia Gouveia
é jornalista, travel-writer e professora de língua portuguesa. Mochileira convicta, leitora incurável, sonhadora juramentada, ela pertence a uma linda labrador chocolate chamada Shakira.
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